Para entender a chamada “nova ordem mundial”, precisamos caminhar da origem dos grandes conflitos do século XX até as transformações econômicas e políticas mais recentes. A Primeira Guerra Mundial não surgiu do nada: ela foi o resultado de décadas de militarismo, imperialismo e alianças rígidas (a famosa sigla MAIN: Militarismo, Alianças, Imperialismo, Nacionalismo). O assassinato do arquiduque Franz Ferdinand, em 28 de junho de 1914, foi a fagulha que detonou um sistema já inflamado; em dias, quase toda a Europa estava em guerra, com milhões de mortos e a queda de quatro impérios (Alemão, o Austro-Húngaro, o Russo e o Otomano).

A paz de 1919 ficou marcada pelo Tratado de Versalhes, que redesenhou fronteiras, impôs perdas territoriais à Alemanha e estabeleceu reparações com base nos artigos 231–233 — o controvertido “war guilt clause” (cláusula de culpa de guerra), que serviu de base jurídica para os pagamentos e alimentou ressentimentos que seriam usados politicamente anos depois.
Dessa paz nasceu a Liga das Nações (1920), o primeiro arranjo universal de segurança coletiva. A Liga teve êxitos pontuais (ajustes de fronteiras, mandatos e ações humanitárias), mas falhou em deter agressões sistêmicas — como a invasão japonesa da Manchúria (1931) e a italiana à Etiópia (1935) — em parte pela ausência dos EUA e pela falta de meios coercitivos robustos. A lição: instituições fracas e concessões sem dissuasão podem acelerar, não evitar, conflitos.
Assim se formam os motivos da Segunda Guerra Mundial: crise econômica dos anos 1930, rearmamento de Alemanha/Itália/Japão e a política de apaziguamento, cujo ápice foi o Acordo de Munique (1938), cedendo os Sudetos à Alemanha sem impedir a subsequente ocupação da Tchecoslováquia e a invasão da Polônia (1939).
A resposta estrutural pós‑1945 foi econômica e institucional. Em Bretton Woods (1944) criou‑se o FMI e o Banco Mundial, e se restabeleceu previsibilidade cambial em torno do dólar‑ouro a US$ 35/oz, arranjo que perdurou até o Nixon Shock (1971), quando os EUA suspenderam a conversibilidade. Esse colapso do ouro foi amortecido por uma nova ancoragem: a precificação global do petróleo em dólares e a reciclagem de “petrodólares” em ativos americanos, fruto de uma teia de cooperação com a Arábia Saudita e outros exportadores — mais complexa do que um “pacto exclusivo” rígido, como desmentido por análises recentes.
No plano político, nasce a Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945, com objetivos de manter a paz, promover direitos humanos e cooperar no desenvolvimento. A ONU sucedeu a Liga com um Conselho de Segurança dotado de poder de decisão e veto dos cinco membros permanentes, refletindo a correlação de forças pós‑Guerra. (A ONU foi pensada já nas conferências de Yalta e São Francisco; o Conselho, com vetos, é simultaneamente garantia de compromisso das grandes potências e fonte de bloqueios decisórios em crises atuais.)
Entre 1947 e 1991, vivemos a Guerra Fria: a política de contenção ao expansionismo soviético (Doutrina Truman, Plano Marshall, OTAN), contraposta ao bloco socialista (Pacto de Varsóvia), com disputas indiretas (Berlim, Coreia, Vietnã, Cuba, Afeganistão), corrida nuclear, espacial e tecnológica. A coesão do bloco oriental começou a ruir com Perestroika (reestruturação) e Glasnost (abertura), reformas de Mikhail Gorbachev que, somadas a estagnação econômica e tensões étnicas, levaram à dissolução da URSS em 1991.
Pós‑Guerra Fria, os EUA emergiram como potência inconteste — o “momento unipolar”. Mas a unipolaridade nunca foi um fim da história: os ganhos asiáticos, a reindustrialização em cadeias globais e a consolidação do Sul Global deslocaram o sistema na direção da multipolaridade. O dólar manteve dominância por profundidade de mercados e confiança institucional, enquanto aumentam, em paralelo, arranjos de compensação em moedas locais.
Nesse contexto floresce o BRIC como hipótese econômica (Goldman Sachs, 2001) e evolui para BRICS como foro político (Cúpula de 2009), com instrumentos como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e o Arranjo Contingente de Reservas (CRA) desde 2014. Em 2024 o bloco foi expandido (Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos); em 2025, Indonésia juntou‑se; e o grupo discute sistemas de pagamento como o BRICS Pay, além do uso ampliado de moedas nacionais e plataformas de liquidação transfronteiriça. Em PPP, os BRICS somam mais de um terço do PIB mundial e mais de 40% da população.
Por que o Sul Global é importante? Porque concentra a maior parte da população, uma fatia crescente da manufatura e das exportações, e desempenha papel decisivo em recursos críticos (energia e minerais da transição). Relatórios destacam que, desde 2000, o output econômico do Sul cresceu mais de cinco vezes e que países em desenvolvimento têm sustentado taxas de crescimento superiores às dos desenvolvidos, embora com grande heterogeneidade e vulnerabilidades. Em números recentes, economias em desenvolvimento cresceram ~4,3% em 2024, versus ~1,8% nas desenvolvidas.

E a ONU, é “incapaz de regular o mundo”? A ONU foi crucial em normatizar direitos humanos, missões de paz e cooperação, mas enfrenta limites estruturais: o veto no Conselho de Segurança pode paralisar respostas a crises (p.ex., guerras recentes), e a fragmentação geopolítica atual dificulta consensos. O problema, portanto, não é só “incapacidade”, mas desenho institucional e assimetria de poder: sem reforma de governança e cooperação mínima entre grandes potências, a ONU acumula “déficits de implementação” — como vimos na incapacidade de mediar cessar‑fogos duráveis em conflitos que se tornaram sistêmicos.
Notícias e conjuntura recente reforçam a transição da ordem: em 2024–2025, os BRICS ampliados debateram sistemas próprios de pagamentos e uso de moedas locais, com a Declaração de Kazan apoiando reformas da ONU e defendendo transição financeira mais justa; e a COP30 em Belém (nov. 2025) colocou a Amazônia e o financiamento climático no centro da agenda, insistindo em “implementação, implementação, implementação”.
Ao mesmo tempo, a guerra na Ucrânia revelou como sanções, tarifas e controle de fluxos tornaram‑se armas econômicas, enquanto o Congresso dos EUA reautorizou um USAI “Ukraine Security Assistance Initiative” (Iniciativa de Assistência de Segurança para a Ucrânia). menor em 2025, sinalizando disputa interna sobre o escopo da ajuda e sobre a liderança americana em alianças.

No Mar Vermelho, ataques dos Houthis (2023–2025) perturbaram rotas e elevaram custos; o cessar‑fogo em Gaza gerou sinais de pausa, mas analistas alertaram para possíveis retomadas — exemplo claro de como conflitos regionais impactam comércio global e segurança energética.
Traçando paralelos e pensando numa eventual “Terceira Guerra Mundial”: as duas guerras anteriores combinaram competição sistêmica, falhas de governança, corrida armamentista, crises econômicas e decisões políticas mal calibradas. Hoje, os ingredientes de risco incluem rivalidade entre grandes potências, guerra por procuração, proliferação tecnológica, militarização de cadeias logísticas e sanções financeiras. A diferença crucial é a interdependência profunda e a dissuasão nuclear, que aumentam o custo de uma guerra total e, paradoxalmente, elevam a importância de canais diplomáticos e mecanismos de gestão de crise (mesmo imperfeitos).
O papel do Brasil é ser ponte e articulador responsável. Em 2024, o Brasil presidiu o G20 com três eixos: inclusão social e combate à fome/pobreza, transição energética e desenvolvimento sustentável, reforma da governança global — lançando a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza. Em 2025, ao sediar a COP30 na Amazônia, o país coloca financiamento climático, bioeconomia e protagonismo indígena no centro da implementação. Isso consolida o Brasil como ator capaz de costurar consensos entre Norte e Sul e defender uma multipolaridade cooperativa, com regras claras, instituições fortes e entrega de resultados.
Em suma, “nova ordem mundial” não é um decreto, é uma evolução de regras e pesos relativos. A “ascensão e queda” dos EUA deve ser entendida como ajuste de primazia num mundo mais plural, onde o dólar continua dominante, mas coexistem arranjos alternativos; a ONU continua central, mas precisa de reforma; o BRICS e o Sul Global ampliam a demanda por mais voz e mais financiamento; e o Brasil tem o dever e a oportunidade de liderar pelo exemplo, com políticas de combate à fome, transição energética e diplomacia de paz. O caminho para evitar um conflito sistêmico não é o improviso nem a retaliação: é governança, cooperação e implementação.
Referências
• Causas da I Guerra: Encyclopaedia Britannica; HistorySkills (MAIN).
• Tratado de Versalhes (Art. 231–233): Britannica; BYU WWI Documents.
• Liga das Nações (sucessos e fracassos): Britannica; WCLN.
• Munich/Apaziguamento: National WWII Museum; World History Encyclopedia.
• Bretton Woods/FMI/Banco Mundial: Federal Reserve History; EBSCO Research.
• Petrodólar (mitos e realidade): Nasdaq/UBS; NextBigFuture (debunk).
• Guerra Fria/Perestroika/Glasnost: Britannica; History.com.
• Unipolaridade: Foreign Affairs (Krauthammer).
• BRICS (história/expansão): Goldman Sachs (histórico); Britannica; Wikipedia 16ª cúpula Kazan 2024.
• Sul Global (dados): UNCTAD Data Insights; South‑South Galaxy Report.
• G20 Brasil 2024/Aliança contra Fome: Portal oficial do G20 Brasil; OECD; UN‑DCO.
• COP30 Belém 2025 (agenda e contexto): UN News; Governo Federal (Secom).
• Ucrânia (ajuda EUA/USAI): CFR; Atlantic Council.
• Mar Vermelho (Houthis): Reuters (USNews republication); Washington Institute.